terça-feira, 25 de março de 2008

TIBETE Testemunho no Público

Na primeira pessoa
25.03.2008
Miguel Sacramento está a dar uma volta ao mundo com a namorada, Clara Piçarra. Foram ao Tibete para ver a "cultura única" e a "beleza natural" do Tecto do Mundo. Mas viram outras coisas. Viram polícias e militares por toda a parte. Por Francisca Gorjão Henriques
Chegámos a Lhasa no dia 3. Estavam menos turistas do que o costume em Lhasa, porque além de ser época baixa, houve problemas com os transportes devido à neve e a única forma de entrar em Lhasa era por avião. A vida decorria normalmente, não havia nada que pudesse indiciar o que se iria passar, nada mesmo. Nas conversas de café falava-se que no dia 10 de Março os tibetanos costumam juntar-se na praça principal para prestar homenagem às vítimas de um suposto massacre que os chineses fizeram em 1959. Eu e a Clara decidimos ir, no dia 10, visitar o mosteiro de Drepong, que fica a dez quilómetros de Lhasa. Passámos lá o dia todo com os monges, a tentar comunicar com os que falavam inglês. Assistimos ao dia-a-dia no mosteiro, ao debate em que trocam ideias sobre o budismo. Quando vínhamos embora, ao final da tarde, é que notámos que alguma coisa se estaria a passar.Depois de sair do mosteiro um dos monges que não falava inglês ia descendo connosco os quatro quilómetros até à estrada principal. Acompanhou-nos nos primeiros quilómetros, íamos tentando comunicar e ele pediu-nos uma caneta e um papel. Sempre que se aproximava alguém, ou que passávamos por chineses ou por uma zona com mais casas, ele afastava-se de nós e cobria a cara com uma túnica. Foi escrevendo, ficou satisfeito quando soube que éramos portugueses, não sei porquê. De repente, quando passou um carro ele assustou-se, riscou o papel que tinha escrito, fez um sinal com a mão de cortar o pescoço e disse "chinese, chinese". Enfiou-se na floresta e começou a correr. Antes de se ir embora disse meio em inglês, meio em tibetano: "Lhasa, Lhasa, go to Lhasa, take pictures, take pictures, monks, take pictures." ("Vão para Lhasa, tirem fotografias, monges, tirem fotografias"). Há uns dias mostrámos esse papel a uns tibetanos, aqui no Nepal, e eles traduziram: "Pela liberdade de expressão e melhoria dos direitos humanos das pessoas no Tibete, os monges hoje estão a preparar um protesto em Lhasa. Vocês..." - não escreveu mais nada.Quando chegámos ao final da rua que dá acesso à estrada principal, reparámos que estavam dezenas de polícias, militares, um aparato enorme, a estrada completamente bloqueada e cada vez a chegarem mais militares, polícia de choque, carros anti-motim. Os monges riam-se, estavam crentes de que poderiam ir a Lhasa participar nessa homenagem. Eram cerca de 50 monges, não mais. Pacíficos, completamente apanhados desprevenidos, sem gritar qualquer tipo de palavra de protesto, sem desacatos. Num segundo estávamos com eles, e no segundo a seguir fomos retirados pela polícia para outro lado da estrada, e os monges foram totalmente bloqueados pela polícia de choque e pelo Exército. Era uma força desproporcional para a quantidade de monges que ali estava. Em segundos estabeleceram um perímetro no qual deixou de haver qualquer testemunha para se saber o que se passou. As pessoas fecharam as lojas e fugiam com o que tinham no corpo e não olhavam para trás.Sentimo-nos florescentes, no meio daqueles monges todos éramos os únicos ocidentais. A partir daí tivemos sempre agentes da polícia e à paisana a controlarem-nos. Perguntámos continuamente o que se passava. Primeiro disseram que não sabiam, depois que era um fogo, depois afinal eram exercícios. Tentámos andar pelas ruas e ver o que se estava a passar, tirar fotografias, mas todas as ruas estavam bloqueadas. Vi passar mais de oito camiões cheios de militares, mais seis ambulâncias.Fechados a cadeadoNo dia 11 de Março tentámos ir a outro mosteiro no centro de Lhasa e a estrada estava bloqueada. E aí sim, já se sentia um ambiente de muita tensão, já se via os tibetanos a aglomerarem-se. As pessoas estavam a começar a lançar algumas palavras de ordem, mas era o máximo que conseguiam fazer. Nunca pensei que viesse a acontecer o que aconteceu em Lhasa, porque a presença militar era de tal maneira forte que não pensei que os chineses deixassem as coisas evoluir neste sentido.Em Lhasa, a polícia de choque dispersou todas as pessoas da praça e proibiu a entrada de tibetanos. Os polícias filmavam toda a gente, com câmaras na mão, agentes à paisana também. A qualquer sinal de que tentávamos levantar a câmara chegavam logo ao pé de nós e ameaçavam-nos tirar a máquina se tirássemos fotografias. Toda a praça foi evacuada. Havia polícias em todas as esquinas das ruas principais de Lhasa. Começámos a ver camiões militares a passar para todo o lado. Saímos antes de começarem os motins na rua. No dia 11 estava tudo calmo, e partimos dia 12 para Katmandu, como previsto.Quando estávamos a sair, eram só veículos militares a chegar. Dezenas. Fizemos essa viagem com quatro israelitas e um casal belga. No dia 11, este casal contou num blogue pessoal deles o que nós tínhamos visto no mosteiro e o que eles tinham visto na praça. E mandaram o texto para o site do Lonely Planet. No dia 12 de manhã tinham centenas de reacções de tibetanos a agradecer terem descrito o que tinha acontecido. A partir daí houve um conjunto de coincidências estranhas. De meia em meia hora havia cortes na estrada em que os militares nos pediam os passaportes, fomos a um café com Internet e pediram-nos a identificação, algo que nunca tinha acontecido. Percebemos que estávamos a ser controlados quando, numa das cidades em que parámos, a polícia informou o director do hotel que o nosso grupo, e especificamente o nosso, não poderia sair. O hotel esteve fechado a cadeado toda a noite e mesmo que quiséssemos sair não podíamos. Ficámos literalmente presos. Foi transmitido aos nossos condutores que só poderíamos parar única e exclusivamente nos locais pré-determinados que tinham sido combinados na agência. Não podíamos fazer qualquer tipo de alterações. Nunca sentimos qualquer tipo de ameaça física, mas sentimos um controlo de cada passo que dávamos, que é intimidatório.Os tibetanos quando se apercebiam que nós tínhamos consciência do que se estava a passar contavam-nos muitas coisas, e falavam do medo que têm em criticar o regime. Como viam que a polícia nos controlava, começaram a confiar em nós. Toda a gente tem muito medo. Se forem apanhados a passar alguma informação para um estrangeiro sofrem consequências gravíssimas. Perder o emprego é o mínimo que lhes pode acontecer. Além de casos de tortura, há centenas de tibetanos que desaparecem sem deixar rasto, assassinados. São testemunhos que nós ouvimos. As fotografias dos distúrbios que nos mostraram alguns tibetanos estão sempre descontextualizadas. Não sabemos se é um tibetano, se é um chinês. Não se pode nunca inferir nada. Tudo o que podemos fazer é especular. Mas o que é estranho, é como as autoridades chinesas deixaram que isso acontecesse com o aparato militar que já lá estava. Muito antes de a violência começar, todos os mosteiros de Lhasa estavam bloqueados por militares e ninguém podia lá entrar. Se quisessem tinham acabado com aquilo em cinco minutos. Assim, a imagem que passam é a de um grupo de tibetanos desordeiros a destruir a própria cidade e a maltratar pessoas. A imagem que passa é que foi um rastilho de pólvora acendido pelos tibetanos, e não foi.A partir de uma entrevista telefónica com Miguel Sacramento, professor de Educação Física, 31 anos, já no Nepal.

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